terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A política não remunerada de Catarina Alves


Futura herdeira de uma casa de chá em Caneças e filha de pai arquiteto, Catarina Alves ou “Cata” para os mais próximos, é neste momento a nova Presidente da Comissão Política Distrital de Lisboa pela Juventude Popular. Esta jovem articula, estimula e desenvolve tudo quanto é atividade política direcionada à juventude no distrito de Lisboa, no CDS. É graças a Catarina que as estruturas estão a crescer em número e em qualidade de militantes.
Com 26 anos, orgulhosa do seu trabalho e já conquistada pelo mundo político, a “menina dos papás” não tem qualquer problema em dizer que ambicionava ter um cargo na Assembleia da República ou mesmo um cargo no Governo.
E, é no cair da noite, na “casa do Largo”, que Catarina reflete sobre as decisões que tem de tomar seja no trabalho remunerado ou sobre qualquer um dos seus ideais políticos.

Quem é a Catarina Alves?

Nome  completo: Catarina Maria Fernando Alves
Data de nascimento: 8 de Outubro de 1987
Desejo: crescer de acordo com o meu mérito
Vício: trabalho, no sentido de ser insaciável, querer sempre mais e melhor. Acho que as coisas nunca estão suficientemente boas.
Segredo: nunca tomo nenhuma decisão sem falar primeiro com os meus pais
Fã de... Paulo Portas
Viagem: Auschwitz porque acho importante conhecer aquela realidade muito pelo ideal político negativo, claro. Penso que todos devíamos de lá ir.
Jantar com… Margaret Thatcher

O começo de uma grande ambição

Como iniciou a sua vida política?

C.A.: Tinha 17 anos quando me filiei na Juventude Popular e só passados 2 anos é que me filiei no CDS. Este percurso está ligado com aquilo que é o meu historial de família. Os meus pais nunca foram filiados, pelo menos até eu entrar para a Juventude Popular, mas sempre se falou muito de política lá em casa. Era um tema recorrente, tanto comigo como com o meu irmão, as coisas eram muito partilhadas e isso foi-me influenciando bastante, até que cheguei aos 17 anos e comecei a achar que devia de participar nas coisas de outra forma. O método para o fazer foi filiar-me numa juventude partidária. Na altura, só me identificava com a Juventude Social Democrata ou com a juventude popular mas achei que a Juventude Popular tinha umas ideias mais vincadas e tinha alguns fatores que distanciavam da JSD.

Com 17 anos, o que é que a fez entrar para a política?

C.A.: Tudo começou pelos princípios que me foram incutidos. Sem dúvida que a culpa é dos meus pais. Depois, fui criando ideais na minha cabeça que achei que deviam de ser partilhados e ouvidos e isso levou-me a procurar caminhos para me poder exprimir. Como a política sempre foi um assunto presente na minha vida, eu quis ultrapassar a barreira de ser apenas uma conversa de família.

Política foi sempre um tema recorrente. Achava, realmente, que ia chegar onde chegou?

C.A.: Eu sempre quis ser arquiteta e foi por mero acaso que, no mesmo ano, entrei para a política. Se há alguns anos me dissessem que ia ter alguma ligação política eu não acreditava porque nem era algo que eu idealizava, mas a verdade é que comecei mesmo a gostar e fui conciliando tudo. Como consegui conciliar tudo, quando acabei a minha licenciatura tirei uma pós graduação em comunicação e marketing político no ISCSP. O bichinho foi sempre ficando.

A luta pelos seus ideais

A arquitetura não está muito ligada à política. Na altura já sentia que o país precisava de uma nova perspetiva e, até, de uma reconstrução?

C.A.: Na altura não me imaginava ainda a reconstruir nada. Os políticos e também juventudes partidárias sempre foram um bocadinho mal vistas. São vistas como escolas de pequeno crime, escolas de cacique. Mas eu acho que em todo lado há pessoas boas e más. O nosso sistema político está feito de forma que só se consegue participar através de um partido político e esse foi o meu método para participar e ter abertura para ter contacto com outros temas que na altura não estava tão familiarizada. Mas hoje em dia sim, já penso, com toda a certeza, em tentar fazer algo diferente quando estiver num cargo mais elevado e com mais responsabilidade.

Até onde é que quer chegar?

C.A.: Eu não escondo, eu gostava de ter uma experiência na assembleia da república ou uma experiencia a nível do governo porque acho que é aí que nós podemos mudar as coisas. Eu, no último mandato autárquico, tive a possibilidade de fazer parte da junta de freguesia de uma assembleia municipal. E é numa junta de freguesia, neste caso, de Casal de Cambra, que nós sentimos que as nossas decisões têm impacto no dia a dia das pessoas, coisas tão simples como arranjar um buraco ou por uma passadeira num cruzamento. São coisas que, na altura, conseguimos ter a perceção do efeito e do impacto das nossas decisões políticas. O que é ótimo. E penso que foi importante começar por aí, para eu ter noção de algo que não tinha até então. Mas sim gostava muito de ter um papel mais importante.

Jovens na política

E os jovens Catarina? Eles entram tão facilmente como desistem?

C.A.: Há dois tipos de jovens. Há os que chegam pelo grupo de amigos e que nem sabem ao que vão, que só pensam em facilitismos, conhecimentos e, esses, acabam sempre por se afastar porque vêem que não é tão fácil assim como eles esperavam. Estão filiados na jp como poderiam estar na js. Depois temos os jovens que vão sozinhos por convicção e que não conhecem ninguém. A esses eu dou muito valor.
 
A Catarina faz parte desse segundo grupo?

C.A.: Sim, eu vejo isto como um processo. Tenho as minhas ambições e quero continuar a levá-las avante. Fico contente por me ter filiado naquele momento e por agora poder dizer que continuo contente com as escolhas que fui tomando. Não me arrependo das decisões porque sei que na altura, que as tomei, não fui contra nenhum princípio meu.

Sendo tão jovem na política, qual é a pergunta que mais lhe fazem?

C.A.: ‘O que é que recebes com isso?‘, é a pergunta que mais me fazem, sem dúvida. As pessoas continuam a não perceber o porquê de eu estar aqui durante estes anos todos e nunca ter recebido nada, em termos de dinheiro. Eu acho que já recebi muito. Conheço praticamente o meu país todo graças às campanhas, por causa de ações que nós fazemos e eu acho que isso é de extrema importância. Claro que todos temos contas para pagar mas por isso é que eu continuei sempre com a arquitetura e assim posso fazer tudo para conquistar a minha independência, quero chegar a um ponto em que, se achar que algo está mau e que os meus ideais já não ajudam em nada, poder sair a qualquer momento.

Como ficou a arquitetura?

C.A.: O curso correu bem. Consegui conciliar tudo e tive boas notas. No ano em que estava a acabar a tese de mestrado foi o ano em que comecei a dar aulas de expressão plástica e acabei por desenvolver a arquitetura desde sempre, ficando, até hoje, a trabalhar com o meu pai. Consigo conciliar as duas coisas, o que acho fantástico. Vejo a política como um escape porque a arquitectura é o que sempre estive habituada e foi aquilo que sempre ambicionei fazer.

“O arrumar da casa”

Tendo o Paulo Portas como referência, como é que viu a falsa saída do seu líder partidário?

C.A.: Eu acho que o Paulo Portas teve de dar um murro na mesa para ser ouvido porque acho que quando nós estamos em coligação é complicado e penso que não era uma falsa saída. Acho que não estamos em altura de fazer birras. Ele saía porque as decisões que estão a ser tomadas, no fundo, são decisões difíceis e que dizem respeito a todos nós. Aquilo foi uma forma do CDS ser ouvido. E se ele saísse as coisas ficavam muito mal porque a visão que isso ia dar para o exterior era terrível porque, sinceramente, penso que, mesmo assim, Portugal tem conseguido manter a credibilidade externa. E quando isso se perde é muitíssimo complicado. Nenhum de nós quer uma Grécia e caso o CDS tivesse saído ia ser complicado.

Quais foram as maiores mudanças no país desde que entrou na política?

C.A.: O que se tentou nestes últimos 4 anos foi um arrumar da casa. Foi a maior mudança para mim. Houve também uma mudança de mentalidades em todas as gerações, nas mais jovens e até mesmo na dos nossos pais. Nós não éramos um povo que fizéssemos muitas perguntas e, agora, acho que já há essa preocupação, houve uma mudança social e, também, de comportamento. Todos levamos uma grande lição destes tempos de crise.

Quais foram os momentos mais marcantes na sua vida política?

C.A.: Ter sido eleita autarca, em Sintra, e ter ganho o primeiro congresso distrital. O ser eleita autarca foi o reconhecimento pelo meu trabalho e o ser convidada a integrar as listas, em 2009, foi sem dúvida muito importante. Perdi muitas horas de sono mas sinto me completamente recompensada com conquistas que tenho feito.

Já pensou em desistir?

C.A.: Sim, já pensei em desistir porque é desgastante. É difícil conciliar a vida pessoal com a vida política porque nem toda gente percebe porque é que eu tenho todos os dias alguma coisa para fazer, sem receber nada em troca. Mas compensa o esforço.

O que é para si a política neste momento?

C.A.: A política é um bocadinho uma escola de vida. Nós aprendemos a ligar com as pessoas naquilo que são as suas ambições e anseios. A parte do gerir pessoas, gerir conflitos, gerir ambições, gerir projectos, torna-se complicado e por isso há sempre pessoas a afastarem-se ou mesmo a ficarem mais próximas. Tenho de saber lidar com muita coisa ao mesmo tempo.

 

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