sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O segredo de uma varredora de rua

8, 16, 18, 37, 43, 2 e 6 foram estes os números que mudaram a vida de Daniela Martins. Sempre com a esperança que a sorte lhe bateria à porta, esta simples varredora de ruas, todas as semanas apostava no euromilhões. Foi no dia 26 de Março de 2010 que a insistente jogadora percebeu que a sua vida poderia, finalmente, levar outro rumo.
 
‘Nelinha’, como é conhecida entre amigos e familiares, sempre foi muito senhora do seu nariz. Vive, hoje, em Valado dos Frades, no concelho da Nazaré com o seu marido, dois filhos menores e um neto, deixado a seu cargo pela filha mais velha.
Seis dias por semana, por volta das sete da manhã, levanta-se, trata dos seus filhos e leva-os para a escola, sempre acompanhada pela harmonia criada nas gargalhadas do seu neto, com apenas um ano de idade. Chega então, por volta das sete e meia ao trabalho onde começa por ter uma “pequena coscuvilhice”, como gosta de chamar à primeira conversa da manhã, com as suas colegas de trabalho. 
 
O DIA EXACTO
Foram 73,355,575 euros que mudaram várias mentalidades. Desde que começou o sorteio do euromilhões, Daniela Pedro Martins, seu nome de nascimento, lança os seus números da sorte, todas as quartas-feiras, para mais uma tentativa de mudar a sua vida. Para além de jogar sozinha, também joga em sociedade com mais 8 pessoas e foi nessa sociedade que ‘Nelinha’ viu o nascer de um novo rumo.
26 de Março de 2010 foi o dia do sorteio e é o dia em que compara a felicidade do seu casamento e do nascimento dos seus filhos. Todo o tempo que esperou pelo dinheiro ganho no sorteio, foi fazendo investimentos adiantados recorrendo ao seu pé-de-meia, que havia sido amealhado para um dia em que tivesse algum problema. Neste caso, não encara como um problema, obviamente, mas sim como “uma oportunidade de Deus”. Aproveitou o dinheiro para arranjar a sua casa, para comprar terrenos e diz, ainda, conseguir guardar dinheiro para alguma eventualidade futura porque “nunca podemos prever o dia de amanhã”.  
 
HORTAS, LIXO E CALÇADA
Daniela Martins, nascida em França e criada em São Martinho do Porto, no concelho de Alcobaça, viveu com a avó paterna a partir dos dois anos de idade. Altura essa em que foi abandonada pelos pais.
Deixando a escola para trás, começou a trabalhar desde cedo. Aos seus 14 anos ajudava a sua avó na horta e recebia dinheiro quando vendiam os produtos na praça. ‘Nelinha’, também adorava de ir ver as obras com o seu avô e foi num desses dias, em que o acompanhava, que conheceu Carlos Martins, actualmente, o seu marido. Tinha 17 anos e ele 20 quando se casaram. Desse casamento saíram três filhos, o Marcelo com 16 anos, Evandro com 10 e, virando o olhar para o horizonte, Sandra, com 23 anos de idade.
Hoje, vive com o marido, com os dois filhos e com um neto confiado pela filha, chamado Martim.
Apenas com a 4ª classe, aos 17 anos, já casada dedicou-se à profissão de varredora de rua, ao mesmo tempo que tirava um curso de calceteira. Exerce hoje a profissão de varredora de ruas a tempo inteiro e de calceteira apenas quando é chamada, visto que, segundo as palavras de Nelinha, “não é uma coisa que me chamem muito”.
Para além de tratar de uma casa, de um “marido desajeitado” e ter a seu cargo três vidas menores, ainda tem tempo para cuidar da horta que foi criando ao longo dos tempos, mas esta, só para consumo próprio. Diz ter uma vida muito ocupada mas sente-se uma pessoa realizada. 

EDUCAÇÃO, ORGULHO
Sempre presente na sua cabeça a vida não muito fácil que teve, diz conseguir, ao longo deste anos, dar uma boa educação aos filhos. O Marcelo, hoje com 16 anos, trabalha na apanha da fruta, perto de sua casa, e estuda ao mesmo tempo.
Sem nunca ter contado aos filhos o dinheiro que ganhou, acha importante que o seu filho mais velho saiba o que é a vida e diz “enquanto continuar a ter boas notas nos pontos e conseguir equilibrar bem com o trabalho, eu não digo nada”. Todo o dinheiro que Marcelo ganha no seu trabalho divide a meias com os pais que, em vez de o gastarem, depositam-no numa conta no banco. Marcelo já vê o seu futuro, quer ser médico e levar a família para uma casa maior e, com o dinheiro que os seus pais fazem questão de guardar, o rapaz de 16 anos já pode ir estudar para outro lado, visto que ali perto não há universidades.
 
“Adoro viver a vida sem ter de pensar todos os dias no futuro dos meus dois filhos e do meu neto”, afirma Daniela Pedro Martins.


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