Seis dias por semana, por volta das
sete da manhã, levanta-se, trata dos seus filhos e leva-os para a escola,
sempre acompanhada pela harmonia criada nas gargalhadas do seu neto, com apenas
um ano de idade. Chega então, por volta das sete e meia ao trabalho onde começa
por ter uma “pequena coscuvilhice”,
como gosta de chamar à primeira conversa da manhã, com as suas colegas de
trabalho.
O DIA EXACTO
Foram 73,355,575 euros que mudaram
várias mentalidades. Desde que começou o sorteio do euromilhões, Daniela Pedro
Martins, seu nome de nascimento, lança os seus números da sorte, todas as quartas-feiras, para mais uma
tentativa de mudar a sua vida. Para além de jogar sozinha, também joga em
sociedade com mais 8 pessoas e foi nessa sociedade que ‘Nelinha’ viu o nascer
de um novo rumo.
26 de Março de 2010 foi o dia do
sorteio e é o dia em que compara a felicidade do seu casamento e do nascimento
dos seus filhos. Todo o tempo que esperou pelo dinheiro ganho no sorteio, foi
fazendo investimentos adiantados recorrendo ao seu pé-de-meia, que havia sido amealhado para um dia em
que tivesse algum problema. Neste caso, não encara como um problema,
obviamente, mas sim como “uma
oportunidade de Deus”. Aproveitou o dinheiro para arranjar a sua casa, para
comprar terrenos e diz, ainda, conseguir guardar dinheiro para alguma
eventualidade futura porque “nunca
podemos prever o dia de amanhã”.
HORTAS, LIXO E CALÇADA
Daniela Martins, nascida em França e
criada em São Martinho
do Porto, no concelho de Alcobaça, viveu com a avó paterna a partir dos dois
anos de idade. Altura essa em que foi abandonada pelos pais.
Deixando a escola para trás, começou
a trabalhar desde cedo. Aos seus 14 anos ajudava a sua avó na horta e recebia
dinheiro quando vendiam os produtos na praça. ‘Nelinha’, também adorava de ir
ver as obras com o seu avô e foi num desses dias, em que o acompanhava, que
conheceu Carlos Martins, actualmente, o seu marido. Tinha 17 anos e ele 20
quando se casaram. Desse casamento saíram três filhos, o Marcelo com 16 anos,
Evandro com 10 e, virando o olhar para o horizonte, Sandra, com 23 anos de
idade.
Hoje, vive com o marido, com os dois
filhos e com um neto confiado pela filha, chamado Martim.
Apenas com a 4ª classe, aos 17 anos,
já casada dedicou-se à profissão de varredora de rua, ao mesmo tempo que tirava
um curso de calceteira. Exerce hoje a profissão de varredora de ruas a tempo
inteiro e de calceteira apenas quando é chamada, visto que, segundo as palavras
de Nelinha, “não é uma coisa que me
chamem muito”.
Para além de tratar de uma casa, de
um “marido desajeitado” e ter a seu
cargo três vidas menores, ainda tem tempo para cuidar da horta que foi criando
ao longo dos tempos, mas esta, só para consumo próprio. Diz ter uma vida muito
ocupada mas sente-se uma pessoa realizada.
EDUCAÇÃO, ORGULHO
Sempre presente na sua cabeça a vida
não muito fácil que teve, diz conseguir, ao longo deste anos, dar uma boa
educação aos filhos. O Marcelo, hoje com 16 anos, trabalha na apanha da fruta,
perto de sua casa, e estuda ao mesmo tempo.
Sem nunca ter contado aos filhos o
dinheiro que ganhou, acha importante que o seu filho mais velho saiba o que é a
vida e diz “enquanto continuar a ter boas
notas nos pontos e conseguir equilibrar bem com o trabalho, eu não digo nada”.
Todo o dinheiro que Marcelo ganha no seu trabalho divide a meias com os pais
que, em vez de o gastarem, depositam-no numa conta no banco. Marcelo já vê o
seu futuro, quer ser médico e levar a família para uma casa maior e, com o
dinheiro que os seus pais fazem questão de guardar, o rapaz de 16 anos já pode
ir estudar para outro lado, visto que ali perto não há universidades.
“Adoro viver a vida sem ter de pensar todos os dias no futuro dos meus
dois filhos e do meu neto”, afirma Daniela Pedro Martins.
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